quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Miss Imperfeita





Nunca fui linda. Na verdade, acho que demorei um certo tempo até me considerar uma pessoa razoavelmente “bonita”, e até a entender o significado do que hoje considero beleza. Quando eu era menina, nunca me achei  bonita. No colégio eu era a “inteligente”, a “simpática”, a “fofa”,  mas bonita mesmo acho que só minha mãe achava hehehehehe. Eu era gordinha, fato. Não gorda, gorda, mas cheinha, daquelas mais pra cheia que pra magra. Fui apelidada de “Bolha” pelo menino que eu gostava, imagine…
Usava óculos desde muito nova e aos 11 coloquei aparelho, entrando de vez pra estatística da feinha-gordinha-quatro-olho-e-de-aparelho. Eu nunca tive pé pequeno e sempre fui alta. Cresci primeiro que as outras meninas da turma, e na quadrilha nunca tinha par pra mim. O menino que eu gostava (aquele mesmo que me chamava de Bolha) era bem baixinho, e eu carrego até hoje o trauma de nunca ter dançado com ele (ô dó hahahaha).
Também nunca fui das mais atletas e sempre  era a última a ser escalada pro time. Meu lugar na aula de educação física era sempre o banco de reservas, e eu até que gostava, já que eu detestava jogar. Fazia natação e nunca gostei de competir. Acho que nunca participei de nenhuma competição. Eu gostava de nadar, mas sem pressa de chegar a lugar nenhum.  
Minhas amigas sempre foram mais bonitas do que eu e faziam muito mais sucesso. Mas, por incrível que pareça, antes que alguém comece a ter peninha de mim, eu não ligava muito pra isso. É sério! Na verdade, acho que eu sabia que não era bonita, que não ia ficar bonita, e achava normal gostar dos meninos que nunca olhariam (e não olharam) pra mim. Só gostava de longe, era amiga deles, e só. Também, nessa época, era mais aquela fase do platonismo mesmo, eu nem pensava em namorar ninguém de verdade.
Aí o tempo foi passando e eu fui crescendo. Crescendo e alongando, o que me fez perder aquela barriguinha (valeu natação!). Deixei o cabelo crescer, a franjinha crescer, saía sem óculos (com quase 4 graus de miopia! o.O) e desenvolvi a técnica incrível de identificar as pessoas de longe pela “mancha gráfica” e pelo jeito de andar. Posso até dar esse curso pra quem quiser! hahahaha
Meu primeiro namorado não estava entre os mais bonitos da turma, mas era um cara legal. Era o mais engraçado, e o primeiro que olhou pra mim de um jeito que não era "somos amigos, amigos do peito". Na verdade, acho que a gente se ajudou… Foi uma época que todo mundo da turma começou a namorar, 12, 13 anos. É engraçada essa fase, parece que todo mundo acorda um dia e pensa “vou namorar”, e no final do mesmo dia tá todo mundo andando de mão dada por aí.  Era namorico de portão, de pipoca dançante, e com meu pai me buscando meia-noite na porta do clube no final. Terminamos porque ele se mudou da cidade onde eu morava.
Depois de algum tempo namorei outro carinha. Foi meu primeiro namoro mais sério, daquele que o pai deixa andar de carro sozinha, sair e voltar a hora que quiser. O primeiro que entrou lá em casa em dia de domingo pra almoçar com meus pais… Ele era bem bonitinho, simpatiquinho (todas as minhas amigas achavam). Pra me conquistar, ficava me mandando recado por uma amiga, perguntando por mim, e eu, que não estava muito acostumada com esse tipo de galanteio, me encantei pelo moço...  Me encantei e me ferrei! Passados os primeiros meses do mar-de-rosas de começo de namoro, tudo começou a virar realidade, com todos os problemas da convivência. E eu, com todo aquele histórico da “feinha da galera”, que nunca tinha namorado ninguém direito antes, passei a me culpar por tudo que não dava certo (Eike Absurdo! Eike Loucura!).
“Ah, ele vai sair com os amigos dele? Então eu devo ser uma companhia muito chata mesmo!”. Comecei a achar que eu era chata e feia (feia, na verdade, eu sempre achei…). Coisa boba mesmo, coisa de menina sem parâmetro, sem personalidade formada (ai se isso fosse hoje!). Imagina namorar um cara cujo padrão de beleza feminina era Carolina Ferraz! (hahahahahaha) Logo eu que sempre tive pernão e bundão. Por algum tempo eu desejei ser bem magra e esquelética. Quis ter cabelo liso e usar roupa de Paty com salto-alto-no-supermercado. Passou. E, é claro, no dia que eu percebi o estrago que isso fazia em mim mesma, o quanto a gente era diferente, e o quanto eu queria mudar a mim mesma pra me adequar ao padrão dele, terminei o namoro. Foi um alívio, confesso.
Não engatei romance nenhum em seguida e passei bastante tempo comigo. Isso foi a melhor coisa que eu fiz... Aprendi a me gostar sem precisar que ninguém me diga que eu sou bonita. Aprendi a enxergar imperfeições como coisas normais, e até a gostar de cada uma delas. Hoje eu me acho bonita. Não me acho linda, nem quero ser. Não me acho perfeita, nem quero ser. Sempre tive perna, bunda e celulite, e isso não me incomoda mais. É claro que eu me cuido, mas também me permito , sem grilo. Percebo a pessoa que eu sou, e sem aquele papo chato de “beleza interior”. Me gosto, me curto, me odeio, me amo, aprendo, erro, insisto e bato cabeça na parede às vezes.
Aprendi a gostar de mim do jeito que eu sou (com celulite e sem peito). Mudo o cabelo quando eu quero, pinto a unha da cor que eu quero, uso a roupa que eu quero.  Falo sozinha, dou risada de mim, choro, quero morrer raríssimas vezes (desconfio de gente que nunca quis/quer morrer  pelo menos uma vez! hahaha). Não vou dizer que não sofro de vez em quando. Sofro. Não vou dizer que não me acho feia. Acho. Não vou dizer que amo meu cabelo sempre.... Tem dias que quero passar máquina zero nele! Fora os amores não correspondidos, o se sentir rejeitada e o chorar vendo filme romântico... Tudo isso eu faço! Mas dura pouco, e depois eu volto a entender que tudo passa, que eu sou legal, e que eu não vou morrer! hehehehe
Gosto de mim com tudo isso, e por tudo isso, e gosto de quem gosta de mim assim, desse jeito que eu sou. Homem que só vê peito e bunda eu passo (nexxxxxt!). Homem que procura uma Gisele que não precisa abrir a boca pra falar, eu também passo. Homem que quer uma Amélia (Adele?) que vai largar a carreira pra cuidar dele, eu também não quero não seu moço, gradicida!
Sou bem feliz do alto dos meus 31 anos de vida, e não ligo a mínima de falar minha idade num blog pra todo mundo ler. Tenho orgulho de mim, com toda a minha bagagem, com todas as minhas pré-rugas, com a minha pele (que não é mais de 15 anos), com meu cabelo cacheado assumido, com todo o meu senso de humor, minha loucura, minha delicadeza, minha brutalidade, minha razão, meu coração, meus desejos, culpas, medos, coragens e afetos. Cuido do meu corpo, mas isso não é a grande e única prioridade da minha vida. Não vou passar 12 horas malhando numa academia, nem vou fazer dieta a vida toda. Cuido da minha cabeça. Cuido do meu coração.
Sou de verdade e inteira. Se você tem medo disso seu moço, melhor nem se aproximar! Eu mordo mesmo!  Tenho horror a homem covarde e babaca. Tenho pavor de tédio, não dependo de ninguém pra viver (graças a Deus!), gosto do que eu faço e pago minhas contas com o  meu trabalho, gosto de estudar, gosto de aprender com a vida, e esse povo que tá na vibe “tô aqui esperando a vida passar e as coisas cairem do céu” não me agrada.
Gosto de quem me vê direito, de verdade, e que sabe achar defeito bonito. Até por que não é defeito gente, é diferencial! 




PS: Esse post não é auto-ajuda, nem é pra vocês ficarem me falando que eu sou bonita! hahahaha É só um desabafo que eu escrevi há um tempo pra mim mesma e que achei legal compartilhar. Vai que, mesmo sem ser auto-ajuda, eu acabo ajudando alguém, né? ;) 

27 comentários:

Marina Ramos disse...

Seu texto é lindo, honesto! Legal vc ter conseguido ficar sozinha. Talvez sem o "espelho" que é a opinião do outro vc tenha vista a sua real beleza! Adorei!

Elishistoria disse...

Adorei! Super me identifiquei. Bjs, sua linda!

Lari disse...

que coisa linda, dona bolsa! de verdade, até me emocionei (tpm) haha
me identifiquei muito porque tenho passado a me entender melhor de uns tempos pra cá, desde que sofri muito com (a falta de) amor alheio e desde então estou sozinha. ler isso foi incrivel!
e sei que não é pra ficar falando, mas olha, eu bem te acho linda sim, oquei? hahhaha
um beijo!

Renata Coelho disse...

me identifiquei muito com a história e a franqueza com que vc a contou...
parabéns! eu tb nunca fui linda, mas aprendi a me gostar assim e isso vale mais do que toda a beleza do mundo!

Carla Noveli disse...

Texto lindo! Verdadeiro!
Eu me identifico tanto com vc Julia!
Hj eu tbem acho q beleza é uma coisa muito relativa! Nunca me apaixono por caras bonitos! Pra mim outras coisas são muito mais importantes!
O legal tbem é q com a idade a gente sempre melhora!
Um beijo pra vc!

Renata Guimarães disse...

Olá Bolsinha,
Olha, eu queria que esse texto fosse meu!! Porque lendo, parecia que você estava falando de mim ( exceto pela bunda, que eu até gostaria de ter..),mas o resto tudo igualzinho, até a idade.
Cansei de homem que enxerga em mim uma futura dona de casa e empregada de luxo. Gosto do meu trabalho, me sustento e sei lavar, cozinhar e passar, mas quero fazer isso quando eu quiser. Seu texto me fez ver melhor o que jã tinha visto, de longe, da minha visâo de miope que se recusa a usar óculos.
tudo de melhor pra vc,
Renata

Daniela Borges disse...

ah, que forma poética de se descrever!
adorei o texto! muito me identifico.

Aline Aimée disse...

Caramba, Julia! Me identifiquei tanto com a tua história!
Melhor ainda é ver a sua atitude diante dos problemas.
Louvável e inspiradora!

Beijão!

@oldidis disse...

Super identifiquei Bolsinha ;) E vc é criativa e inteligente isso ai fica pra vida inteira O negocio é ser feliz ;*

Lu Henrichs disse...

Parece que vc estava falando de mim, tirando o fato de eu sempre ser a baixinha (e a tímida) da turma!

E parece que passei pelo mesmo tipo de crescimento e evolução que você.
Sempre tenho vontade de viver situações do passado com a cabeça que tenho hoje. Penso que seria tudo tão diferente!

Mas fato é que o presente tá bom demais. E sim, a gente ser assim, assusta muito os moçoilos. Mas um dia chega aquele que finca o pé do seu lado e curte todos os seus diferencias! Aí é só partir pro abraço, minha amiga.

ADOREI o posto!

Patrícia disse...

Falou e disse!
Em tempos de escovas definitivas dominando as cabeças, pessoas que assumem seus cachos são definitivamente especiais!

Yaoanna disse...

Poxa fazia uns 3 meses que não dava uma "vasculhada na sua bolsinha" não me leve a mal rsrs
e não é que hj q eu ganhei uma folga e dei uma olhada nos favoritos entrei e me deparei justamente com o q eu tava pensando hoje de manhã ... realmente a gente tem que ser a gente e ponto final quem quiser que goste... afinal a LEGAL SIMPÁTICA e AMIGA fica pro resto da vida né... já as Bonitas nem tanto rsrss

Anônimo disse...

Chorei! Só digo isso...
Beijinho, menina LINDA!

Juliana Spitz disse...

Adorei o texto!!! Nossa, menina é tudo igual mesmo, eu mesma me vi em algumas partes do seu texto!!! O importante é ser feliz, independente de qualquer coisa... beijos.

Dani Picanço disse...

O tempo melhora tanto a gente, né? Essa lucidez é uma linda e acalma o coração.
Sempre fui "a bonita", exótica pela morenice com olho claro... isso mais me atrapalhou que ajudou.
Hj me acho linda, gatíssima. kkk E defeito não é defeito, é característica. Mais uma de muitas.

Guga Fernandes-Mídias Socias disse...

Hoje no blog tem dicas de moda, beleza e muito estilo nos posts, faça uma visitinha lá e confira todas essas novidades.
Beijos, espero sua visita.
www.meuestilogugafernandes.com.brr

Ana Carolina disse...

Curti! :)

Acho que quando você se sente confortável com o seu próprio corpo, com o que você é e para de tentar agradar os outros, você passa a "exalar" um outro tipo de beleza, sabe? E essa beleza é a melhor de todas!

Como outras pessoas já comentaram, me identifico muito com você!

Obrigada por compartilhar seu texto e nos fazer ver que a imperfeição pode ser a coisa mais linda que alguém tem pra oferecer! E um beijo pra ti!

Aninha disse...

Muito bom! Acho que muita gente se identificou.

www.ffash.com.br

Cyca disse...

É por isso que amamos seu blog, Julia. Por post assim. Obrigada, mesmo, de coração, por compartilhar com a gente. Obrigada por ser normal. Beijo grande. E bom Carnaval! :D

Raissa Kahn disse...

Adorei seu texto/desabafo...temos quase a mesma idade e me lembro dessas fases de todo mundo queria namorar, dançar música lenta, gostar do mesmo menino...

Tb nunca fui a mais bonita da turma, mas vivi cada momentinho sendo assim (imperfeita e feliz) até hoje :)

E tem coisa melhor?

Um grande beijo e bom findi!

renatinha disse...

caraca, bolsa, lindo seu texto, honestíssimo. Muito bom saber que vc, assim como todas as mulheres, teve dúvidas quanto à auto-estima por que é isso que nos ensinam, já reparou?
E cara, se eu te visse na rua com certeza ia pensar "que mulher bonita" pq a sua beleza vai além da aparência, vc é bonita por que é uma mulher feliz. Tomara que um dia eu consiga pensar que nem você pq, por enquanto, tá foda rs bjo

Ju disse...

por fim, ajudou alguém! entrei por acaso no blog, li sem pretensão...e terminei lendo isso...eu q fico "gradicida"! olhei para dentro com mais carinho agora, obrigada! :)

Jessica disse...

Ai adorei, passei a me sentir bonita qdo engravidei e estava sozinha nessa epoca, mas me divertia eu e meu bebe na barriga. foi minha 1ª melhor fase.
hoje ja to na 3ª melhor fase, que é onde já conversamos como mae e filha.
lindo texto!
bjo

Coisa Phynna disse...

Vc é de uma beleza q transcende o físico, sim, vc é linda!
Adorei!
Bjs!!!

mimimi disse...

ô gente, quanto carinho... bendita hora que eu tive vontade de compartilhar esse texto! me trouxe tanta energia boa, que delícia saber que encontro eco por onde eu passo... que legal os e-mails que tenho recebido, os comentários de vocês, a identificação... sabe, acho que somos lindas sim! lindas e perfeitas porque somos sensíveis, mulheres de verdade com história e coração...
e vocês nem imaginam as coisas boas que esse texto já me trouxe! ô! hehehe
um beijo em todas vocês, miss perfeitas e lindas do meu <3

Adriana Severo disse...

Já fazia tempo que n vinha ver teu blog, ele tá nos meus favoritos faz tempo tb. Fui rolando e vendo o que eu perdi e me deparei com o teu texto agora. E era o que exatamente eu pensei em todo o meu final de semana e o que conversei hoje com a minha mãe! Vontade de imprimir e colar no guarda roupa e ler quando eu mais precisar. Thanks Bolsinha! Tu fez o meu dia começar mais feliz agora. :)

Eriquitas disse...

Me identifiquei super!
Um beijo
PS: eu compro seu livro, se vc vier a publicar :)