sábado, 12 de setembro de 2009

Ser ou não ser criativo? Eis a questão.

Hoje em dia é muito comum ouvirmos coisas do tipo: “temos que ser criativos”, “o mercado de trabalho hoje exige criatividade e inovação”. Criatividade é uma coisa muito necessária, isso não se discute, mas será que somos educados para termos esse tipo de postura diante da vida? 

Acho que toda criança é criativa. Está descobrindo o mundo, experimentando as coisas, se deslumbrando diante daquilo que vê. Tudo é novidade, tudo é um acontecimento. Peça para uma criança fazer um desenho e ela fará, do seu jeito. Mas peça para um adulto fazer um desenho e ele responderá de imediato: “não sei desenhar”. A verdade é que aprendemos a “não” sermos criativos à medida que vamos crescendo, ouvindo os adultos falando o que devemos (ou podemos) fazer, o que é certo e errado, o que e bonito ou feio.  

Lendo um texto sobre criatividade, fiquei pensando: “Puxa, mas também não tem como não aprendermos com os adultos!” Afinal, aprendemos a própria cultura dentro da qual estamos inseridos, e isso nos é passado pelas pessoas que já estão no mundo há mais tempo que nós e que já a aprenderam. Mas pensando bem, acho que existem maneiras e maneiras de aprender tudo isso.  

Temos que aprender o que é certo ou errado sim, mas isso não precisa ser uma imposição. Acho também que os pais precisam estimular seus filhos para que descubram sozinhos algumas coisas. A criança precisa se sentir à vontade para tirar suas conclusões, para fazer algumas coisas do seu jeito. 

Tenho dois sobrinhos, Guilherme de 1 ano e meio e Ana Júlia de 9. Guilherme está naquela fase em que aprende tudo (uma infinidade de coisas!) e muito rápido. Muitas vezes surpreende todo mundo quando a mãe diz que tem que limpar o nariz del, e ele aparece com um pedaço de papel higiênico na mão. Ana Júlia é uma menina muito esperta. Gosta de se arrumar e tem muita opinião - até sobre o que quer ou não vestir. Mas outro dia observei uma atitude curiosa dela. Há pouco tempo atrás, Juju fazia mil desenhos e me dava de presente. Eu fiz uma pequena galeria de arte na minha geladeira com os desenhos dela (todos muito coloridos e espontâneos). Mas agora ela deu pra achar que os desenhos dela são feios, que ela não sabe desenhar direito e só quer saber daquelas revistinhas com desenhos prontos para colorir (que eu detesto!). Fiquei chateada com isso! Por que agora ela está pensando assim? 

Na certa, ela está aprendendo (ou porque alguém falou, ou porque andou vendo desenhos mais “perfeitos” que o dela) que os desenhos dela não são tão bons e fica com “vergonha”de fazê-los. Onde está o problema? 
O problema está justamente no NÃO que ouvimos o tempo todo, até de nós mesmos: “Não faça isso!”, “você não pode desenhar assim”, “uma flor não é assim”, e por aí vai. Muitas vezes nem são os pais que dizem isso. Às vezes a criança vê isso na TV, na internet, vê os desenhos dos coleguinhas e acha que o seu não é tão bonito, escuta uma conversa de adultos e entende assim...  

Na escola também - com algumas raras exceções -  geralmente não somos estimulados a termos uma postura criativa. O que vemos muitas vezes é aquele velho formato: “professor coloca a matéria no quadro, todo mundo copia, professor explica, todo mundo faz o dever de casa – que é bem dentro daquilo que o professor explicou – e no final todo mundo faz uma prova “decoreba” do assunto”. Os professores raramente estimulam os alunos a buscarem conhecimento em outras fontes que não sejam o livro adotado pela escola. Não vemos atividades diferentes como uma ida a um museu ou um parque florestal. Fica sempre aquela mesmice da sala de aula que não dá margem para ninguém agir de uma forma diferente. Não dá liberdade para que o aluno busque conhecimento de acordo com seus interesses. Não tem espaço nem para ouvir os alunos, nem mesmo um tempinho para que eles falem do que descobriram ou viram na internet. Aí, depois de tudo isso, querem que todo mundo seja criativo no trabalho. Como? 

E como fica o designer, numa profissão em que “ser criativo” é fundamental e essencial? Sou publicitária e trabalhei por muito tempo em agências de propaganda. Quando estava na faculdade ficava sonhando trabalhar em uma agência. Imaginava um ambiente criativo, lúdico, cheio de gente criativa e com roupas legais. Divertido, não? Mas quando cheguei no mercado vi que a coisa não era bem assim... Passava o dia inteiro em uma sala fechada, sem janelas, de frente para um computador, e tendo que criar em cima de briefings de uma linha como: “criar uma marca para uma rede de salões de beleza”. Como ser criativo desse jeito? 

Isso sem falar na pressão, na correria porque “o anúncio TEM que sair no jornal de domingo e o cliente TEM que aprovar porque vai viajar para a praia no fim de semana”. Perdia a hora do almoço quase sempre, dormia pouco, não tinha tempo para andar na rua e ver a vida, entrava no trabalho com o sol e saia quando já estava escuro, não tinha tempo para ler revistas ou ver filmes (bagagem mais que necessária para um publicitário!), e como resultado ganhei uma gastrite nervosa. 

Larguei tudo e quase desisti de ser uma “criativa”. Pensei em seguir carreira acadêmica  e deixar o lado criativo para meus futuros alunos. Mas hoje vejo que não, que é impossível eu não ter essa postura criativa. Que até minhas aulas têm a minha cara, e que eu quero sim “criar” coisas. E estou tentando fazer isso de uma forma menos agressiva para mim.  

Acho que ser criativo é um exercício diário. É pensar de uma maneira diferente, olhar as coisas por outros ângulos, se manter informado, ter tempo para pensar e repensar, viver a vida de uma maneira mais light. Não dá pra entrar naquele furacão louco da rotina e deixar tudo isso contaminar o que há de mais bonito na gente!

Tem gente que só consegue ser criativo no meio do caos. Pode até ser que dê certo, mas a longo prazo isso acaba com qualquer ser humano. Por isso, escolhi ter tempo para mim e exercer a minha criatividade em paz. Acho que é assim que funciona. Pelo menos comigo...




:*

2 comentários:

Julia disse...

Show de bola!

Júlia disse...

é o meu trabalhinho para a aula de segunda! kkkkkkkkkkkkk :)