Nunca fui linda. Na verdade, acho que demorei um certo tempo até me considerar uma pessoa razoavelmente “bonita”, e até a entender o significado do que hoje considero beleza. Quando eu era menina, nunca me achei bonita. No colégio eu era a “inteligente”, a “simpática”, a “fofa”, mas bonita mesmo acho que só minha mãe achava hehehehehe. Eu era gordinha, fato. Não gorda, gorda, mas cheinha, daquelas mais pra cheia que pra magra. Fui apelidada de “Bolha” pelo menino que eu gostava, imagine…
Usava
óculos desde muito nova e aos 11 coloquei aparelho, entrando de vez pra
estatística da feinha-gordinha-quatro-olho-e-de-aparelho. Eu nunca tive pé
pequeno e sempre fui alta. Cresci primeiro que as outras meninas da turma, e na
quadrilha nunca tinha par pra mim. O menino que eu gostava (aquele mesmo que me chamava
de Bolha) era bem baixinho, e eu carrego até hoje o trauma de nunca ter dançado
com ele (ô dó hahahaha).
Também
nunca fui das mais atletas e sempre
era a última a ser escalada pro time. Meu lugar na aula de educação
física era sempre o banco de reservas, e eu até que gostava, já que eu detestava
jogar. Fazia natação e nunca gostei de competir. Acho que nunca participei de
nenhuma competição. Eu gostava de nadar, mas sem pressa de chegar a lugar
nenhum.
Minhas
amigas sempre foram mais bonitas do que eu e faziam muito mais sucesso. Mas,
por incrível que pareça, antes que alguém comece a ter peninha de mim, eu não
ligava muito pra isso. É sério! Na verdade, acho que eu sabia que não era bonita, que
não ia ficar bonita, e achava normal gostar dos meninos que nunca olhariam (e
não olharam) pra mim. Só gostava de longe, era amiga deles, e só. Também, nessa
época, era mais aquela fase do platonismo mesmo, eu nem pensava em namorar
ninguém de verdade.
Aí o tempo
foi passando e eu fui crescendo. Crescendo e alongando, o que me fez perder aquela
barriguinha (valeu natação!). Deixei o cabelo crescer, a franjinha crescer, saía
sem óculos (com quase 4 graus de miopia! o.O) e desenvolvi a técnica incrível de identificar as pessoas de longe
pela “mancha gráfica” e pelo jeito de andar. Posso até dar esse curso pra quem quiser! hahahaha
Meu primeiro namorado não estava
entre os mais bonitos da turma, mas era um cara legal. Era o mais engraçado, e
o primeiro que olhou pra mim de um jeito que não era "somos amigos, amigos do peito". Na verdade,
acho que a gente se ajudou… Foi uma época que todo mundo da turma começou a
namorar, 12, 13 anos. É engraçada essa fase, parece que todo mundo acorda um
dia e pensa “vou namorar”, e no final do mesmo dia tá todo mundo andando de mão
dada por aí. Era namorico de
portão, de pipoca dançante, e com meu pai me buscando meia-noite na porta do
clube no final. Terminamos porque ele se mudou da cidade onde eu morava.
Depois de
algum tempo namorei outro carinha. Foi meu primeiro namoro mais sério, daquele
que o pai deixa andar de carro sozinha, sair e voltar a hora que quiser. O
primeiro que entrou lá em casa em dia de domingo pra almoçar com meus pais… Ele
era bem bonitinho, simpatiquinho (todas as minhas amigas achavam). Pra me conquistar, ficava
me mandando recado por uma amiga, perguntando por mim, e eu, que não estava muito
acostumada com esse tipo de galanteio, me encantei pelo moço... Me encantei e me ferrei! Passados os
primeiros meses do mar-de-rosas de começo de namoro, tudo começou a virar realidade, com todos
os problemas da convivência. E eu, com todo aquele histórico da “feinha da
galera”, que nunca tinha namorado ninguém direito antes, passei a me culpar por
tudo que não dava certo (Eike Absurdo! Eike Loucura!).
“Ah, ele vai sair com os amigos dele? Então eu devo
ser uma companhia muito chata mesmo!”. Comecei a achar que eu era chata e feia
(feia, na verdade, eu sempre achei…). Coisa boba mesmo, coisa de menina sem parâmetro,
sem personalidade formada (ai se isso fosse hoje!). Imagina namorar um cara cujo padrão de beleza feminina era Carolina
Ferraz! (hahahahahaha) Logo eu que sempre tive pernão e bundão. Por algum tempo
eu desejei ser bem magra e esquelética. Quis ter cabelo liso e usar roupa de
Paty com salto-alto-no-supermercado. Passou. E, é claro, no dia que eu percebi
o estrago que isso fazia em mim mesma, o quanto a gente era diferente, e o
quanto eu queria mudar a mim mesma pra me adequar ao padrão dele, terminei o
namoro. Foi um alívio, confesso.
Não engatei
romance nenhum em seguida e passei bastante tempo comigo. Isso foi a melhor coisa que eu fiz... Aprendi a me gostar
sem precisar que ninguém me diga que eu sou bonita. Aprendi a enxergar
imperfeições como coisas normais, e até a gostar de cada uma delas. Hoje eu me
acho bonita. Não me acho linda, nem quero ser. Não me acho perfeita, nem quero
ser. Sempre tive perna, bunda e celulite, e isso não me incomoda mais. É claro
que eu me cuido, mas também me permito , sem grilo. Percebo a pessoa que eu
sou, e sem aquele papo chato de “beleza interior”. Me gosto, me curto, me
odeio, me amo, aprendo, erro, insisto e bato cabeça na parede às vezes.
Aprendi a
gostar de mim do jeito que eu sou (com celulite e sem peito). Mudo o cabelo
quando eu quero, pinto a unha da cor que eu quero, uso a roupa que eu
quero. Falo sozinha, dou risada de
mim, choro, quero morrer raríssimas vezes (desconfio de gente que nunca quis/quer
morrer pelo menos uma vez! hahaha). Não vou dizer que não sofro de vez em quando. Sofro. Não vou dizer que não me acho feia. Acho. Não vou dizer que amo meu cabelo sempre.... Tem dias que quero passar máquina zero nele! Fora os amores não correspondidos, o se sentir rejeitada e o chorar vendo filme romântico... Tudo isso eu faço! Mas dura pouco, e depois eu volto a entender que tudo passa, que eu sou legal, e que eu não vou morrer! hehehehe
Gosto de mim
com tudo isso, e por tudo isso, e gosto de quem gosta de mim assim, desse jeito
que eu sou. Homem que só vê peito e bunda eu passo (nexxxxxt!). Homem que
procura uma Gisele que não precisa abrir a boca pra falar, eu também passo.
Homem que quer uma Amélia (Adele?) que vai largar a carreira pra cuidar dele, eu
também não quero não seu moço, gradicida!
Sou bem
feliz do alto dos meus 31 anos de vida, e não ligo a mínima de falar minha
idade num blog pra todo mundo ler. Tenho orgulho de mim, com toda a minha
bagagem, com todas as minhas pré-rugas, com a minha pele (que não é
mais de 15 anos), com meu cabelo cacheado assumido, com todo o meu senso de
humor, minha loucura, minha delicadeza, minha brutalidade, minha razão, meu
coração, meus desejos, culpas, medos, coragens e afetos. Cuido do meu corpo, mas isso não é a grande e única prioridade da minha vida. Não vou passar 12 horas malhando numa academia, nem vou fazer dieta a vida toda. Cuido da minha cabeça. Cuido do meu coração.
Sou de
verdade e inteira. Se você tem medo disso seu moço, melhor nem se aproximar! Eu
mordo mesmo! Tenho horror a homem
covarde e babaca. Tenho pavor de tédio, não dependo de ninguém pra viver (graças a Deus!), gosto do que eu
faço e pago minhas contas com o meu trabalho, gosto de estudar, gosto de aprender com a vida, e esse povo que tá na
vibe “tô aqui esperando a vida passar e as coisas cairem do céu” não me agrada.
Gosto de
quem me vê direito, de verdade, e que sabe achar defeito bonito. Até por que não
é defeito gente, é diferencial!
PS: Esse post não é auto-ajuda, nem é pra vocês ficarem me falando que eu sou bonita! hahahaha É só um desabafo que eu escrevi há um tempo pra mim mesma e que achei legal compartilhar. Vai que, mesmo sem ser auto-ajuda, eu acabo ajudando alguém, né? ;)